terça-feira, 1 de dezembro de 2015

SE NÃO TEM, ELAS FAZEM TER!

ANDAMOS POR BARES E ESPAÇOS CULTURAIS EM BELO HORIZONTE CONVERSANDO COM AS MULHERES LÉSBICAS E PODEMOS CONTAR: APESAR DOS CASOS DE LESBOFOBIA E ASSÉDIO, ELAS ESTÃO CONQUISTANDO ESPAÇO.

 

A história dos espaços para lésbicas em Belo Horizonte poderia ser resumida em algumas frases: não tem, e o que tinha, fechou. Mas essa falta de opções não fez as lésbicas sumirem do espaço públco: elas não aceitam mais se esconder! Sem bares, cafés ou boates pensados para elas, as lésbicas têm
construído seus próprios lugares, se apropriando de estabelecimentos gays, de espaços culturais alternativos, e até daquele boteco ali do lado onde você jamais esperaria ver uma mesa cheia de mulheres que não querem saber de homens. Nós fomos até alguns desses lugares e conversamos com as mulheres lésbicas que encontramos por lá para entender: e aí, o que as lésbicas têm para fazer em BH? Para onde elas vão quando querem se encontrar?


A região onde estão localizados os principais lugares que as entrevistadas dizem frequentar é a Savassi. Começamos o trajeto andando pela Rua Antônio de Albuquerque, onde as mesas dos bares ocupam toda a extensão da rua e há tantas pessoas frequentando o ambiente que nas sextas e sábados os estabelecimentos se confundem em meio a mesas, cadeiras e pessoas em pé. Mas o bar mais famoso do local é mesmo o chamado Baiana do Acarajé. Lá conversamos com um grupo de cinco mulheres, todas lésbicas, que contaram um pouco porque frequentam a região.
 
 
“A gente se sente
à vontade aqui, no 80,
Orizontino, Bombshell,
essa parte toda, o
Bombshell pra lá, todos
os lugares.”

O bar está situado em dois locais na mesma rua, mas serve as mesmas opções e abarca o mesmo público em ambos - até porque, estão quase um frente ao outro. O grupo também mencionou outros lugares da região que costumam frequentar. Um dos bares mencionados pelas entrevistadas é o 80 Bar também famoso estabelecimento que encontramos logo depois, virando a esquina na Rua Paraíba.

Ali, as músicas mais voltadas para o rock atraem variados públicos - e lá, entre eles, também estão mulheres lésbicas. Seguindo pela Avenida Getúlio Vargas, na Rua Sergipe, já quase na Avenida do Contorno, chegamos a um terceiro local: o Bar Imperial. Bar Imperial, na Savassi Famoso entre gays e lésbicas belo horizontinos, o movimento no dia em que visitamos não estava tão alto assim. Mesmo assim, o bar continua sendo um ponto de encontro que atrai especialmente gays e lésbicas. Descendo a mesma rua, encontramos o Rei do Pastel, um bar com preços mais baixos que os demais na região, e que também foi ocupado por lésbicas, afinal, segundo elas, "a gente é lésbica em todo lugar (...) A gente evita por que o pessoal fica olhando, acha chato, mas eu beijo". Duas ruas depois do Rei do Pastel fica o Bombshell. No ambiente alternativo do bar, expressar carinho para Ana Júlia, 20, nunca
foi problema: “Eu sempre venho aqui, às vezes só em casais, nunca tive problema nesse bar. Já
tive em outros lugares, mas aqui não”.

Ana Julia, 20 anos
Mas nem só de Savassi vivem as lésbicas mineiras. Afinal, o acesso ao bairro não é assim tão popular. O transporte público para a região, por exemplo, não atende a grande maioria dos bairros de
Belo Horizonte e região metropolitana. E as lésbicas dos outros lugares? Têm para onde ir? Segundo a estudante Vanessa, 23 anos, uma das opções é o centro, mas, mesmo assim, ainda há dificuldades: “quem mora longe e não tem como ficar indo pra Savassi geralmente vai no centro, Raul Soares, Maletta, onde é mais fácil chegar. As vezes o centro, tipo a Cássia e tal, são mais legais que a Savassi. Alguns bairros até que tem opções, como onde eu moro, no Eldorado, tem uns dois que costumo ir com minhas amigas. Mas não me sinto tão a vontade, porque tem muito mais héteros. Os lugares mais tranquilos, que tem mais lésbicas, são difíceis de chegar e é caro. Gasto duas horas de ônibus pra Savassi, e lá a cerveja é bem mais cara”. Outra entrevistada também comentou sobre as características da Savassi: “os gays frequentam aqui, né, mas se a gente for parar paera pensar, são os gays mais coxinhas, mais, mais classe média alta.

Você vai no centrão, você vai ver realmente o que é alternativo. Em santa tereza também é um bom lugar. Santa Tereza é um lugar que abraça todo mundo, é um lugar familiar, e é um lugar de todos.” Uma opção citada no bairro Santa Tereza foi o Bar do Orlando. Seguindo da Savassi para o centro da cidade, passamos por um dos mais citados bares frequentados por lésbicas: o Bar da Cássia, na Rua Rio de Janeiro. Lá é um dos poucos locais com muitos anos de funcionamento e que reúne público lésbico há mais tempo. No andar de baixo funciona o bar e, no andar de cima, um animado karaokê.

“Quem mora longe e não
tem como ficar indo pra
Savassi geralmente vai no
centro, Raul Soares,
Maletta, onde é mais fácil
chegar. As vezes o centro,
tipo a Cássia e tal, são mais
legais que a Savassi”

Vanessa, 22 anos

Seguindo na direção da Av. Augusto de Lima, ao chegar nessa avenida há duas opções: virar à
esquerda, onde se encontra a Praça Raul Soares e alguns bares em torno dela, ou à direita, onde está
localizado o prédio do Maletta - edifício tradicional onde há bares e sebos e costuma atrair gays e lésbicas de BH.

Ainda há incômodo e receio em muitos ambientes. Segundo a estudante de psicologia Tamires,
"no Lourdes a gente fica recatada, lugares héteros em geral a gente fica recatada (...) em restaurantes, por exemplo, a gente não é tão afetuosa”. Além disso, na própria Savassi há problemas “o assédio de homens ele acontece mesmo aqui nessa região, tipo, na Obra, que é mais misturado assim, não é só gay. Aliás, lá é muito hétero, só que eles são mais alternativos. Na obra já teve gente chegando falando ‘ei, eu posso ficar com você e com sua namorada?’, mas isso também já aconteceu na velvet comigo e com minha namorada”, conta a estudante de design Marina Fonseca. Resistindo ao assédio e à lesbofobia, a ocupação de bares citados na Savassi e no Centro, por exemplo, continua sendo a alternativa que as lésbicas encontram para se reunir, conversar, se divertir e se expressar.

“A gente é lésbica
em todo lugar”
Luiza, estudante de
Comércio Exterior
 

ABORTO: Os Deputados Federais mineiros lutam pela vida de quem?


No mês em que a Igreja Católica anunciou a possibilidade dos padres perdoarem as mulheres que já abortaram, levantamos em que pé está o tema no Brasil e como têm se posicionado os deputados de Minas Gerais.

As recentes declarações do Papa Francisco sobre o aborto tumultuaram o mês de setembro. O assunto, que é uma das mais polêmicas divergências políticas, recebeu mais um tempero para a discussão: durante um ano, na Igreja Católica, os padres poderão dar o perdão para as mulheres que abortaram. Controvérsias e murmurinhos pipocaram de todos os lados, mas, afinal, o que está envolvido no debate do aborto? No âmbito da política e das leis, como anda a situação do aborto no Brasil? E os parlamentares mineiros, como se posicionam em relação ao tema?
De acordo com uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 8,7 milhões de mulheres brasileiras entre 18 e 49 anos já abortaram, sendo que 1,1 milhão foram abortos provocados. Ainda segundo o instituto, o sudeste é a segunda região com mais casos de abortos, com 38,5% dos casos, e quase empata com o primeiro lugar, o nordeste, que tem 39,2% dos casos. O próprio IBGE, entretanto, admite que há a possibilidade do número de abortos provocados ser muito maior, devido à clandestinidade e a criminalização do ato. De acordo com o estudo “Magnitude do Abortamento Induzido por Faixa Etária e Grandes Regiões”, de Mario Giani Monteiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e Leila Adesse, da ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde, cerca de 850 mil mulheres realizam aborto no Brasil por ano. Se considerarmos o período de 2004 a 2013, o número pode variar entre 7,5 milhões e 9,3 milhões de mulheres. O aborto inseguro causa a morte de uma mulher a cada dois dias no Brasil. Hoje, o aborto é crime previsto pelo código penal, sendo permitido apenas em três casos: estupro, fetos anencefálicos e risco de vida para a mulher.  Assim sendo, será que quando um político se coloca como "a favor da vida e contra o aborto", ele está sendo de fato a favor da vida? E a vida dessas mulheres que morrem todos os dias realizando abortos clandestinos? Não contam?
Há, hoje, quatro principais projetos que tratam do aborto tramitando na Câmara dos Deputados. Dos quatro, apenas um vai no sentido da descriminalização do ato. Trata-se do PL 882/2015, de Jean Wyllys (PSOL-RJ), que propõe que "toda mulher tem o direito a decidir livremente pela interrupção voluntária de sua gravidez durante as primeiras doze semanas do processo gestacional". Já os outros três projetos criminalizam ainda mais as mulheres. O PL 6115/2013 de Salvador Zimbaldi (PDT-SP) e Alberto Filho (PMDB-MA), propõe que seja exigido "o exame de corpo de delito comprovando estupro para que o médico possa realizar aborto". O PL 5069/2013 de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), "tipifica como crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática de aborto". Já o PL 6033/2013, também de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é o pior deles. O Projeto prevê que a Lei 12.845 seja revogada. Essa Lei é justamente a que permite o aborto nos casos de estupro, risco de vida para a mãe e fetos anencefálicos. Caso esse projeto entre em vigor, as mulheres estupradas, por exemplo, não poderão mais abortar.
Os quatro Projetos de Leis em questão já foram apresentados ao Plenário e aguardam
apreciação. Enquanto isso, algumas frentes parlamentares foram formadas na casa para se
posicionar contra o aborto, se intitulando "em defesa da vida". Minas Gerais é o segundo estado mais
presente nas Frentes, perdendo apenas para São Paulo. Confira a lista dos deputados mineiros que
participam das frentes conservadoras:

FRENTES
Frente Parlamentar Mista Em Defesa da Vida - Contra o Aborto (2011)
Frente Parlamentar Mista Em Defesa da Vida e da Família (2015)
Frente Parlamentar Mista da Família e Apoio à Vida (2015)


DEPUTADOS MINEIROS A FAVOR QUE O ABORTO CONTINUE SENDO CONSIDERADO CRIME
Ademir Camilo (PROS) - Assinou em 2011 e 2015.
Aelton Freitas (PR) - Assinou em 2011 e 2015.
Bonifácio de Andrada (PSDB) - Assinou em 2011 e 2015.
Brunny (PTC) - Assinou em 2015.
Carlos Melles (DEM) - Assinou em 2011.
Diego Andrade (PSD) - Assinou em 2015.
Dimas Fabiano (PP) - Assinou em 2015.
Domingos Sávio (PSDB) - Assinou em 2011.
Dr. Grilo (SD) - Assinou em 2011.
Eduardo Barbosa (PSDB) ) - Assinou em 2015.
Eros Biondini (PTB) ) - Assinou em 2015.
Gabriel Guimarães (PT) ) - Assinou em 2015.
Geraldo Thadeu (PSD) - Assinou em 2011.
Isaias Silvestre (PSB) - É coautor do Projeto de Lei 5069/2013, com Eduardo Cunha.
Jaime Martins (PSD) - Assinou em 2011 e 2015.
Jairo Ataíde (DEM) - Assinou em 2011.
João Bittar (DEM) - Assinou em 2011.
João Magalhães (PMDB) - Assinou em 2011.
Júlio Delgado (PSB) - Assinou em 2011.
Laudivio Carvalho (PMDB) - Assinou em 2015.
Leonardo Monteiro (PT) - Assinou em 2011.
Leonardo Quintão (PMDB) - Assinou em 2011.
Lincoln Portela (PR) - Assinou em 2011 e 2015.
Luiz Fernando Faria (PP) - Assinou em 2011 e 2015.
Marcelo Álvaro Antônio (PRP) - Assinou em 2011 e 2015.
Marcos Montes (PSD) - Assinou em 2015.
Mauro Lopes (PMDB) - Assinou em 2015.
Misael Varella (DEM) - Assinou em 2015.
Newton Cardoso Jr. (PMDB) - Assinou em 2015.
Paulo Abi-Ackel (PSDB) - Assinou em 2011 e 2015.
Renzo Braz (PP) - Assinou em 2015.
Rodrigo de Castro (PSDB) - Assinou em 2015.
Rodrigo Pacheco (PMDB) - Assinou em 2015.
Silas Brasileiro (PMDB) - Assinou em 2015.
Stefano Aguiar (PSB) - Assinou em 2011 e 2015.
Subtenente Gonzaga (PDT) - Assinou em 2015.
Tenente Lúcio (PSB) - Assinou em 2015.
Walter Tosta (PSD) - Assinou em 2011.
Weliton Prado (PT) - Assinou em 2011 e 2015.
Zé Silva (SD) - Assinou em 2015.