Pontos obscuros na cobertura da grande mídia sobre a tragédia em Mariana-MG
A cobertura midiática a respeito do rompimento da barragem de rejeitos de mineração que causou uma enxurrada de lama que inundou o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, tem sido alvo de duras críticas no que diz respeito à supressão de fatos importantes a serem problematizados. Os veículos tradicionais de mídia são acusados de minimizar os conflitos e as contradições por trás do problema, ressaltando os discursos de executivos e de membros do governo, à revelia da população local. Há doze dias a mídia vem fazendo cobertura exaustiva do ocorrido, mas está longe de esclarecer questões chaves, como a responsabilidade daquilo já é considerado a maior tragédia ambiental do Estado, sem falar nas vidas perdidas e população afetada.
Um ponto relevante que tem ficado por baixo da lama é certamente de quem é a responsabilidade pela tragédia e os verdadeiros envolvidos com as atividades de exploração do minério na região. 50% da Samarco pertence à Vale, empresa que após ser privatizada retirou o Rio Doce de seu nome. A anglo-australiana BHP Billiton detém a outra metade, a empresa é uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa (radicada na África do Sul) Billiton, atuante em quatro continentes. Na América do Sul, a empresa está presente nas veias abertas do Chile, Colômbia e Peru. No histórico da BHP há uma multa ambiental de US$ 77 mil, por contaminação do ambiente por cobre, em sua área de atuação no Peru. A corporação já protagonizou também, na Papua Nova Guiné, uma contaminação fluvial histórica.
O Sindicato dos Trabalhadores da Mineração de Congonhas, Mariana, Ouro Preto e Região - Metabase Inconfidentes, lembra que desde o momento em que a barragem se rompeu, trabalhadores ligavam para o sindicato para dar a notícia. Segundo o sindicato, horas antes de a barragem romper, alguns trabalhadores relatam que ligaram para a empresa informando que já haviam sinais de rompimento, mas que a ordem foi continuar trabalhando no local. “Já há mais de quatro anos, trabalhadores terceirizados informaram a empresa sobre vazamentos na barragem e a Samarco e a Vale não fizeram nada”, enfatiza Valério Vieira, dirigente sindical. Ele denuncia também que não haviam sinalizadores sonoros na barragem nem na cidade de Bento Rodrigues para avisar a população de uma possível ruptura. Os sinalizadores foram instalados dois dias após a ruptura.
A presidente Dilma Rousseff mutou a Samarco em 250 milhões de reais, que Valério contesta: “O sindicato Metabase fez um estudo sobre os lucros da Vale e esse valor é menor do que a empresa ganha em um dia de funcionamento”. Além disso, há preocupações com os trabalhadores que correm grande risco de serem demitidos após a inundação do local. Já os trabalhadores cobram também outra postura do governo do Estado. O governador Fernando Pimentel, em uma atitude precipitada, deu entrevista de dentro da sede da Samarco e caracterizou a empresa como vítima, ou seja, insentando-a da responsabilidade do ocorrido antes de qualquer avaliação técnica.
Apesar de a Samarco ser produto da junção de duas grandes empresas mineradoras, o nome das suas acionistas -Vale e BHP Biliton- custou a aparecer em cena nos principais canais da televisão aberta. Circula nas redes sociais um vídeo em que um cinegrafista e uma apresentadora da rede Globo se recusam a continuar a entrevista com um morador de Mariana que denunciava o descaso das empresas. As revistas de maior circulação também evitam o assunto. Uma semana após uma das maiores tragédia ambiental do país, as capas da Veja, Isto é, Época e Carta Capital, fogem do tema. Sem evidências que fenômenos naturais causaram o rompimento da barragem do Fundão, os críticos da cobertura midiática apontam que não dizer que a Samarco e a Vale são as verdadeiras responsáveis pela tragédia, esconde a prática dessas empresas que, uma vez nas mãos da iniciativa privada, exploram os recursos naturais de Minas Gerais para obter mais lucros, mesmo que para isso deixem de se comprometer com a preservação da vida das pessoas e do meio ambiente.
Nesta terça, 17, a investigação criminal acerca da tragédia ganhou proporção nacional. A pedido do Ministério Público Federal (MPF), a Polícia Federal (PF) abriu inquérito para investigar o rompimento da barragem em Mariana e o risco de novos rompimentos. De acordo com a PF, a decisão se justifica porque os rejeitos atingiram o Rio Doce, que é bem da União, já que banha mais de um Estado. Serão verificados os crimes ambientais e as causas do rompimento da mina de Fundão.

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