Cristiane tem 35 anos e carrega a emocionante história de quem já percorreu o seguinte caminho em sua trajetória: São Paulo, Vale do Jequitinhonha, São Paulo, Belo Horizonte, Vale do Jequitinhonha e hoje pousa na ocupação urbana William Rosa, em Contagem, região metropolitana da capital mineira.
A casa de Cristiane é feita de tábua de madeira, possui uma luz fraca com fiação visível e não tem janela, tornandoa escura mesmo a luz do dia. São quatro cômodos construidos de maneira separada, ou seja, entre eles existe uma área descoberta. : o quarto de Cristiane e das crianças, com uma cama de casal e um colchão de casal inflável no chão, onde dormem os três filhos, além de uma prateleira onde ficam as mochilas, roupas e sapatos; a cozinha onde concentra uma cesta básica, uma pia, fogão e geladeira pequena, conjugada com o quarto da filha mais velha e a neta. Em frente a cozinha, fica o banheiro da residência.
Os olhos de Cristiane se enchem de lágrimas ao contar que sua mãe a deixou com o pai em São Paulo quando tinha apenas dois dias de vida. Aos dois meses de idade, ela foi levada a morar com a avó paterna no Vale do Jequitinhonha. Ao completar sete anos, Cristiane não podia mais continuar na casa da avó, devido às condições financeiras da família. Ela então foi vendida a uma casa de homens, que a embebedavam para estuprá-la. Cristiane era alcoólatra aos dez anos de idade e engravidou aos quatorze. “A minha barriga começou a crescer e eu não sabia por quê. Eu não sabia o que era ficar grávida. Quando perguntei, eles falaram que tinha um sapo na minha barriga”. E com a expectativa de expelir o sapo, Cristiane chegou ao hospital e teve a notícia de que, na verdade, ela acabara de parir um filho.
Ela voltou para a casa da avó, que a ajudava a criar seu filho. Nessa época, conheceu o homem com quem teve uma filha, se casou e se mudou para São Paulo, deixando o filho com a bisavó. “Eu não sabia o que ia acontecer, mas foi aí que eu comi o pão que o diabo amassou”. O marido era enfermeiro e Cristiane cuidava da casa e da filha recém- nascida. Ele bebia e frequentemente espancava Cristiane, chegando a cortá-la com bisturi algumas vezes. Para sair dessa situação, Cristiane só tinha uma alternativa: deixar a filha com o marido e fugir. Ela passou uma semana morando na rua até chegar a Belo Horizonte, onde encontrou quem a recebesse em casa. Sem emprego e lugar para morar, Cristiane voltou para o Vale do Jequitinhonha, mas também não obteve sucesso para se manter. Aceitou o pedido de casamento de Antônio (28), que conhecera quando estava em BH, e voltou para Contagem, na região metropolitana da capital, para se casar com ele. O atual marido é servente de pedreiro há dez anos.
Cristiane deixara um filho com a bisavó no Vale do Jequitinhonha e uma filha com o ex- marido que a espancava em São Paulo. Em outubro de 2013, ela estava em um estágio profundo de depressão, pesava 110 quilos, encontrava enorme dificuldade para pagar o aluguel junto com o marido, quatro filhos – Ingrid (22), João Emanuel (10), Lucas Antônio (7), Vitória Emanuele (5) – e uma neta, Naila (2). Cristiane estava na fila de espera para conseguir uma casa pelo programa do governo federal “Minha Casa Minha Vida” e também na ocupação Dandara, localizada em Belo Horizonte. Após mais de seis meses de espera, no dia 12 de outubro de 2013, ao saber de uma nova ocupação que surgiu próximo da sua casa em Contagem, juntou meia dúzia de roupas, uma cadeira, uma sombrinha e acampou no terreno ocupado. “Até conseguir levantar uma barraca, eu dormia na casa dos outros e passava o dia ajudando nas coisas da ocupação”. Quando, então, ela conseguiu levantar sua casa de tábua de madeira, levou a família para a William Rosa. Desde que entrou, Cristiane se livrou da depressão, emagreceu e se tornou a liderança da equipe azul da ocupação. É ela quem divide as casas, as doações e as tarefas, é também quem mobiliza sua equipe quando tem assembleia ou manifestação e quem sabe sobre os moradores da ocupação. Por todos esses motivos, é ela quem a polícia e o tráfico de drogas procuram para saber informações.
“Eu não vou desistir da luta”
Cristiane falando na Assembleia Legislativa sobre a situação das
ocupações urbanas da reigão metropolitana de Belo Horizonte, no dia 05
de setembro de 2015
A visita feita à casa de Cristiane é interrompida o tempo todo. A cada batida na porta, demandas diferentes de pessoas que procuram ajuda por não terem alimento em casa, por terem sido ameaçadas pelo tráfico e por terem necessidade de ir ao médico. Cristiane afirma que guarda o nome dos moradores na cabeça e que, para sua segurança, prefere nem ter anotado. Além de resolver os problemas pessoais, ela conta como se dedicou para garantir as condições de vida em seu setor. “Aqui na ocupação o primeiro setor que teve água dentro de casa, foi o azul. Eu, sem ajuda de homem nenhum, dei o jeito de puxar água para dentro da casa dos moradores. Depois teve problema na luze eu resolvi também”. “É mesmo!”, respondeu João, seu filho mais velho, que assistia Chaves na TV que chiava ao lado.
Cristiane já foi responsável por representar a ocupação William Rosa em diversos espaços institucionais de negociação com o poder público e nos movimentos sociais por moradia. Ela também foi responsável por levar as mulheres da William Rosa na manifestação ocorrida no dia 8 de março de 2014, em combate à violência contra a mulher, e costumava realizar encontros das mulheres da ocupação junto com o Movimento Mulheres em Luta (MML). “Eu tinha depressão profunda, era obesa, não tinha ânimo para nada. Mas quando eu descobri a luta, minha vida voltou a fazer sentido. Eu descobri que organizada no Movimento Mulheres em Luta e no Luta Popular, podia fazer diferença no mundo”, disse, emocionada, a coordenadora, enquanto falava sobre como emagreceu tanto em pouco tempo e parou de tomar antidepressivos.
No entanto, com o passar dos dias e a falta de negociação com os governos municipal, estadual e federal para construir casas dignas para os moradores, cresce na ocupação a guerra do tráfico de drogas entre o bairro Laguna e a “Vilinha do Ceasa”, como é conhecida a ocupação na região. Os confrontos têm um foco: a região geográfica da equipe azul. Isso afeta a dinâmica de Cristiane. “Eu não estou indo nas reuniões de mulheres porque estou com trauma de andar à noite, só estou indo nas reuniões da coordenação quando alguém me traz em casa”. Ela conta que parte da sua rotina diária era ir a todas as casas para conversar com os moradores sobre as atividades da semana, mas que não tem conseguido fazer isso. “A situação não está fácil, só continua aqui quem precisa de verdade. Nós não sabemos qual vai ser a saída. A negociação precisa acelerar, mas eles tratam a gente igual bicho. Nós temos direitos a muitas coisas que ficam debaixo do tapete”, diz Cristiane.
Em mais de uma hora de conversa sem conseguir olhar nos olhos da entrevistadora sequer uma vez, Cristiane tem duas certezas: a primeira é de que não volta mais para o aluguel, nem que seja preciso construir um barraco na esquina. A segunda é de que não vai, nunca, desistir da luta. Essa última certeza, ela afirma com uma ressalva: “em todas as lutas, eu vou estar junto. Mas como apoiadora. Não tenho condições de ser organizadora mais”.
Reunião de mulheres da ocupação William Rosa no dia 20 de setembro de 2015
Apesar do cansaço de Cristiane, ela é inspira força em muitas mulheres na ocupação. Paola tem 35 anos, é travesti e afirma que não sabe como seria sua vida se não tivesse encontrado a coordenadora de sua equipe, azul. “Quando eu cheguei aqui, não tinha ninguém e a Cristiane me ajudou a construir minha casa, colocar as coisas que têm nela e me ensinou a lutar”, contou. Paola percebe que a amiga anda cansada, mas ela sorri contando dos diálogos que frequentemente acontece entre elas: “eu falo com ela, para um pouquinho, respira um pouquinho, mas volta pra luta. A gente precisa de você”.
“Para começar a organização das mulheres da ocupação, a Cristiane foi fundamental”, é o fato que Lacerda, coordenador da equipe laranja, destaca na primeira conversa. Lacerda não esconde a admiração pela companheira de coordenação e sorri ao completar: “Nós só vamos sair daqui juntos quando a gente conseguir nossa casa, nossa moradia digna”.