terça-feira, 1 de dezembro de 2015

SE NÃO TEM, ELAS FAZEM TER!

ANDAMOS POR BARES E ESPAÇOS CULTURAIS EM BELO HORIZONTE CONVERSANDO COM AS MULHERES LÉSBICAS E PODEMOS CONTAR: APESAR DOS CASOS DE LESBOFOBIA E ASSÉDIO, ELAS ESTÃO CONQUISTANDO ESPAÇO.

 

A história dos espaços para lésbicas em Belo Horizonte poderia ser resumida em algumas frases: não tem, e o que tinha, fechou. Mas essa falta de opções não fez as lésbicas sumirem do espaço públco: elas não aceitam mais se esconder! Sem bares, cafés ou boates pensados para elas, as lésbicas têm
construído seus próprios lugares, se apropriando de estabelecimentos gays, de espaços culturais alternativos, e até daquele boteco ali do lado onde você jamais esperaria ver uma mesa cheia de mulheres que não querem saber de homens. Nós fomos até alguns desses lugares e conversamos com as mulheres lésbicas que encontramos por lá para entender: e aí, o que as lésbicas têm para fazer em BH? Para onde elas vão quando querem se encontrar?


A região onde estão localizados os principais lugares que as entrevistadas dizem frequentar é a Savassi. Começamos o trajeto andando pela Rua Antônio de Albuquerque, onde as mesas dos bares ocupam toda a extensão da rua e há tantas pessoas frequentando o ambiente que nas sextas e sábados os estabelecimentos se confundem em meio a mesas, cadeiras e pessoas em pé. Mas o bar mais famoso do local é mesmo o chamado Baiana do Acarajé. Lá conversamos com um grupo de cinco mulheres, todas lésbicas, que contaram um pouco porque frequentam a região.
 
 
“A gente se sente
à vontade aqui, no 80,
Orizontino, Bombshell,
essa parte toda, o
Bombshell pra lá, todos
os lugares.”

O bar está situado em dois locais na mesma rua, mas serve as mesmas opções e abarca o mesmo público em ambos - até porque, estão quase um frente ao outro. O grupo também mencionou outros lugares da região que costumam frequentar. Um dos bares mencionados pelas entrevistadas é o 80 Bar também famoso estabelecimento que encontramos logo depois, virando a esquina na Rua Paraíba.

Ali, as músicas mais voltadas para o rock atraem variados públicos - e lá, entre eles, também estão mulheres lésbicas. Seguindo pela Avenida Getúlio Vargas, na Rua Sergipe, já quase na Avenida do Contorno, chegamos a um terceiro local: o Bar Imperial. Bar Imperial, na Savassi Famoso entre gays e lésbicas belo horizontinos, o movimento no dia em que visitamos não estava tão alto assim. Mesmo assim, o bar continua sendo um ponto de encontro que atrai especialmente gays e lésbicas. Descendo a mesma rua, encontramos o Rei do Pastel, um bar com preços mais baixos que os demais na região, e que também foi ocupado por lésbicas, afinal, segundo elas, "a gente é lésbica em todo lugar (...) A gente evita por que o pessoal fica olhando, acha chato, mas eu beijo". Duas ruas depois do Rei do Pastel fica o Bombshell. No ambiente alternativo do bar, expressar carinho para Ana Júlia, 20, nunca
foi problema: “Eu sempre venho aqui, às vezes só em casais, nunca tive problema nesse bar. Já
tive em outros lugares, mas aqui não”.

Ana Julia, 20 anos
Mas nem só de Savassi vivem as lésbicas mineiras. Afinal, o acesso ao bairro não é assim tão popular. O transporte público para a região, por exemplo, não atende a grande maioria dos bairros de
Belo Horizonte e região metropolitana. E as lésbicas dos outros lugares? Têm para onde ir? Segundo a estudante Vanessa, 23 anos, uma das opções é o centro, mas, mesmo assim, ainda há dificuldades: “quem mora longe e não tem como ficar indo pra Savassi geralmente vai no centro, Raul Soares, Maletta, onde é mais fácil chegar. As vezes o centro, tipo a Cássia e tal, são mais legais que a Savassi. Alguns bairros até que tem opções, como onde eu moro, no Eldorado, tem uns dois que costumo ir com minhas amigas. Mas não me sinto tão a vontade, porque tem muito mais héteros. Os lugares mais tranquilos, que tem mais lésbicas, são difíceis de chegar e é caro. Gasto duas horas de ônibus pra Savassi, e lá a cerveja é bem mais cara”. Outra entrevistada também comentou sobre as características da Savassi: “os gays frequentam aqui, né, mas se a gente for parar paera pensar, são os gays mais coxinhas, mais, mais classe média alta.

Você vai no centrão, você vai ver realmente o que é alternativo. Em santa tereza também é um bom lugar. Santa Tereza é um lugar que abraça todo mundo, é um lugar familiar, e é um lugar de todos.” Uma opção citada no bairro Santa Tereza foi o Bar do Orlando. Seguindo da Savassi para o centro da cidade, passamos por um dos mais citados bares frequentados por lésbicas: o Bar da Cássia, na Rua Rio de Janeiro. Lá é um dos poucos locais com muitos anos de funcionamento e que reúne público lésbico há mais tempo. No andar de baixo funciona o bar e, no andar de cima, um animado karaokê.

“Quem mora longe e não
tem como ficar indo pra
Savassi geralmente vai no
centro, Raul Soares,
Maletta, onde é mais fácil
chegar. As vezes o centro,
tipo a Cássia e tal, são mais
legais que a Savassi”

Vanessa, 22 anos

Seguindo na direção da Av. Augusto de Lima, ao chegar nessa avenida há duas opções: virar à
esquerda, onde se encontra a Praça Raul Soares e alguns bares em torno dela, ou à direita, onde está
localizado o prédio do Maletta - edifício tradicional onde há bares e sebos e costuma atrair gays e lésbicas de BH.

Ainda há incômodo e receio em muitos ambientes. Segundo a estudante de psicologia Tamires,
"no Lourdes a gente fica recatada, lugares héteros em geral a gente fica recatada (...) em restaurantes, por exemplo, a gente não é tão afetuosa”. Além disso, na própria Savassi há problemas “o assédio de homens ele acontece mesmo aqui nessa região, tipo, na Obra, que é mais misturado assim, não é só gay. Aliás, lá é muito hétero, só que eles são mais alternativos. Na obra já teve gente chegando falando ‘ei, eu posso ficar com você e com sua namorada?’, mas isso também já aconteceu na velvet comigo e com minha namorada”, conta a estudante de design Marina Fonseca. Resistindo ao assédio e à lesbofobia, a ocupação de bares citados na Savassi e no Centro, por exemplo, continua sendo a alternativa que as lésbicas encontram para se reunir, conversar, se divertir e se expressar.

“A gente é lésbica
em todo lugar”
Luiza, estudante de
Comércio Exterior
 

ABORTO: Os Deputados Federais mineiros lutam pela vida de quem?


No mês em que a Igreja Católica anunciou a possibilidade dos padres perdoarem as mulheres que já abortaram, levantamos em que pé está o tema no Brasil e como têm se posicionado os deputados de Minas Gerais.

As recentes declarações do Papa Francisco sobre o aborto tumultuaram o mês de setembro. O assunto, que é uma das mais polêmicas divergências políticas, recebeu mais um tempero para a discussão: durante um ano, na Igreja Católica, os padres poderão dar o perdão para as mulheres que abortaram. Controvérsias e murmurinhos pipocaram de todos os lados, mas, afinal, o que está envolvido no debate do aborto? No âmbito da política e das leis, como anda a situação do aborto no Brasil? E os parlamentares mineiros, como se posicionam em relação ao tema?
De acordo com uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 8,7 milhões de mulheres brasileiras entre 18 e 49 anos já abortaram, sendo que 1,1 milhão foram abortos provocados. Ainda segundo o instituto, o sudeste é a segunda região com mais casos de abortos, com 38,5% dos casos, e quase empata com o primeiro lugar, o nordeste, que tem 39,2% dos casos. O próprio IBGE, entretanto, admite que há a possibilidade do número de abortos provocados ser muito maior, devido à clandestinidade e a criminalização do ato. De acordo com o estudo “Magnitude do Abortamento Induzido por Faixa Etária e Grandes Regiões”, de Mario Giani Monteiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e Leila Adesse, da ONG Ações Afirmativas em Direitos e Saúde, cerca de 850 mil mulheres realizam aborto no Brasil por ano. Se considerarmos o período de 2004 a 2013, o número pode variar entre 7,5 milhões e 9,3 milhões de mulheres. O aborto inseguro causa a morte de uma mulher a cada dois dias no Brasil. Hoje, o aborto é crime previsto pelo código penal, sendo permitido apenas em três casos: estupro, fetos anencefálicos e risco de vida para a mulher.  Assim sendo, será que quando um político se coloca como "a favor da vida e contra o aborto", ele está sendo de fato a favor da vida? E a vida dessas mulheres que morrem todos os dias realizando abortos clandestinos? Não contam?
Há, hoje, quatro principais projetos que tratam do aborto tramitando na Câmara dos Deputados. Dos quatro, apenas um vai no sentido da descriminalização do ato. Trata-se do PL 882/2015, de Jean Wyllys (PSOL-RJ), que propõe que "toda mulher tem o direito a decidir livremente pela interrupção voluntária de sua gravidez durante as primeiras doze semanas do processo gestacional". Já os outros três projetos criminalizam ainda mais as mulheres. O PL 6115/2013 de Salvador Zimbaldi (PDT-SP) e Alberto Filho (PMDB-MA), propõe que seja exigido "o exame de corpo de delito comprovando estupro para que o médico possa realizar aborto". O PL 5069/2013 de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), "tipifica como crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática de aborto". Já o PL 6033/2013, também de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é o pior deles. O Projeto prevê que a Lei 12.845 seja revogada. Essa Lei é justamente a que permite o aborto nos casos de estupro, risco de vida para a mãe e fetos anencefálicos. Caso esse projeto entre em vigor, as mulheres estupradas, por exemplo, não poderão mais abortar.
Os quatro Projetos de Leis em questão já foram apresentados ao Plenário e aguardam
apreciação. Enquanto isso, algumas frentes parlamentares foram formadas na casa para se
posicionar contra o aborto, se intitulando "em defesa da vida". Minas Gerais é o segundo estado mais
presente nas Frentes, perdendo apenas para São Paulo. Confira a lista dos deputados mineiros que
participam das frentes conservadoras:

FRENTES
Frente Parlamentar Mista Em Defesa da Vida - Contra o Aborto (2011)
Frente Parlamentar Mista Em Defesa da Vida e da Família (2015)
Frente Parlamentar Mista da Família e Apoio à Vida (2015)


DEPUTADOS MINEIROS A FAVOR QUE O ABORTO CONTINUE SENDO CONSIDERADO CRIME
Ademir Camilo (PROS) - Assinou em 2011 e 2015.
Aelton Freitas (PR) - Assinou em 2011 e 2015.
Bonifácio de Andrada (PSDB) - Assinou em 2011 e 2015.
Brunny (PTC) - Assinou em 2015.
Carlos Melles (DEM) - Assinou em 2011.
Diego Andrade (PSD) - Assinou em 2015.
Dimas Fabiano (PP) - Assinou em 2015.
Domingos Sávio (PSDB) - Assinou em 2011.
Dr. Grilo (SD) - Assinou em 2011.
Eduardo Barbosa (PSDB) ) - Assinou em 2015.
Eros Biondini (PTB) ) - Assinou em 2015.
Gabriel Guimarães (PT) ) - Assinou em 2015.
Geraldo Thadeu (PSD) - Assinou em 2011.
Isaias Silvestre (PSB) - É coautor do Projeto de Lei 5069/2013, com Eduardo Cunha.
Jaime Martins (PSD) - Assinou em 2011 e 2015.
Jairo Ataíde (DEM) - Assinou em 2011.
João Bittar (DEM) - Assinou em 2011.
João Magalhães (PMDB) - Assinou em 2011.
Júlio Delgado (PSB) - Assinou em 2011.
Laudivio Carvalho (PMDB) - Assinou em 2015.
Leonardo Monteiro (PT) - Assinou em 2011.
Leonardo Quintão (PMDB) - Assinou em 2011.
Lincoln Portela (PR) - Assinou em 2011 e 2015.
Luiz Fernando Faria (PP) - Assinou em 2011 e 2015.
Marcelo Álvaro Antônio (PRP) - Assinou em 2011 e 2015.
Marcos Montes (PSD) - Assinou em 2015.
Mauro Lopes (PMDB) - Assinou em 2015.
Misael Varella (DEM) - Assinou em 2015.
Newton Cardoso Jr. (PMDB) - Assinou em 2015.
Paulo Abi-Ackel (PSDB) - Assinou em 2011 e 2015.
Renzo Braz (PP) - Assinou em 2015.
Rodrigo de Castro (PSDB) - Assinou em 2015.
Rodrigo Pacheco (PMDB) - Assinou em 2015.
Silas Brasileiro (PMDB) - Assinou em 2015.
Stefano Aguiar (PSB) - Assinou em 2011 e 2015.
Subtenente Gonzaga (PDT) - Assinou em 2015.
Tenente Lúcio (PSB) - Assinou em 2015.
Walter Tosta (PSD) - Assinou em 2011.
Weliton Prado (PT) - Assinou em 2011 e 2015.
Zé Silva (SD) - Assinou em 2015.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Lei do esquecimento gera polêmica no Congresso Nacional

Se aprovado o projeto conhecido como Lei do Esquecimento, qualquer pessoa pode requisitar à justiça a retirada de registros na internet que se relacione negativamente ao seu nome




Passar uma borracha em registros nas redes sociais, foi a proposta apresentada por Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara de Deputados, em 2014. A previsão é que qualquer pessoa possa requisitar a indisponibilidade de conteúdo que associe seu nome ou sua imagem a um fato que julgar calunioso, difamatório, injurioso ou a um crime de que tenha sido absolvido e sobre o qual não haja mais possibilidade de recurso. Se o juiz deferir o pedido, o meio de comunicação será obrigado a retirar e apagar conteúdos que estejam armazenados em arquivos de meios de comunicação ou páginas e serviços na internet. O projeto foi aprovado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) no último dia 6 a pedido da deputada Soraya Santos (PMDB­RJ), com a seguinte redação: “É obrigatória a remoção de links dos mecanismos de busca da internet que façam referência a dados irrelevantes ou defasados, por iniciativa de qualquer cidadão ou a pedido da pessoa envolvida”.

No projeto, a justificativa é dada pelos danos que as novas tecnologias vêm provocando nos dias atuais. “O direito ao esquecimento tem sua origem histórica no campo das condenações criminais. Surge como parcela importante do direito ao ex ­detento à ressocialização. Não atribui a ninguém o direito de apagar fatos ou reescrever a própria história, mas apenas assegura a possibilidade de discutir o uso que é dado aos fatos pretéritos, mais especificamente o modo e a finalidade com que são lembrados”, diz o texto que justifica o projeto na Câmara. A deputada Soraya Santos, entende que os registros fazem com que a pessoa sofra transtornos mesmo depois de absolvida. Ela esclarece também a importância do discernimento do Juiz que vai decidir se os registros continuam ou não nas redes.

O projeto agora vai ao plenário e deve sofrer resistência de parte dos parlamentares. Alguns deputados, por exemplo, alegam que se trata de uma tentativa assumida de importar para o Brasil um modelo implementado na Europa que já tem sido alvo de críticas. De um lado, estão os defensores da privacidade e intimidade e, de outro, os defensores do direito a informação, transparência e interesse público, apoiados no Marco Civil da Internet. O Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional, órgão auxiliar sem poder deliberativo, se posicionou contra a aprovação desse projeto, afirmando que ele tem repercussões negativas à liberdade de expressão e o direito à memória.


Os movimentos sociais que clamam pelo Marco Civil da Internet se enfurecem mais uma vez com Eduardo Cunha, que já se declarou como principal opositor do Marco Civil. Ativistas afirmam que essa é mais uma forma de beneficiar os políticos que tenham aspectos negativos em seus currículos e não o direito à informação por parte da população. O coletivo 'Jornalistas Livres' afirma que o projeto tem por motivação justamente permitir que políticos incomodados retirem conteúdos que falem mal deles.

Caso a proposta seja aprovada, o senador Fernando Collor (PTB­AL), por exemplo, poderia entrar na Justiça para que fosse retirada qualquer citação ao seu nome sobre os processos a que respondeu no Supremo Tribunal Federal. Uma vez aprovado pelos deputados, o texto ainda passará por duas comissões e, enfim, seguirá para aprovação dos senadores.

A GARRA

Cristiane tem 35 anos e carrega a emocionante história de quem já percorreu o seguinte caminho em sua trajetória: São Paulo, Vale do Jequitinhonha, São Paulo, Belo Horizonte, Vale do Jequitinhonha e hoje pousa na ocupação urbana William Rosa, em Contagem, região metropolitana da capital mineira.

A casa de Cristiane é feita de tábua de madeira, possui uma luz fraca com fiação visível e não tem janela, tornando­a escura mesmo a luz do dia. São quatro cômodos construidos de maneira separada, ou seja, entre eles existe uma área descoberta. : o quarto de Cristiane e das crianças, com uma cama de casal e um colchão de casal inflável no chão, onde dormem os três filhos, além de uma prateleira onde ficam as mochilas, roupas e sapatos; a cozinha onde concentra uma cesta básica, uma pia, fogão e geladeira pequena, conjugada com o quarto da filha mais velha e a neta. Em frente a cozinha, fica o banheiro da residência.

Os olhos de Cristiane se enchem de lágrimas ao contar que sua mãe a deixou com o pai em São Paulo quando tinha apenas dois dias de vida. Aos dois meses de idade, ela foi levada a morar com a avó paterna no Vale do Jequitinhonha. Ao completar sete anos, Cristiane não podia mais continuar na casa da avó, devido às condições financeiras da família. Ela então foi vendida a uma casa de homens, que a embebedavam para estuprá­-la. Cristiane era alcoólatra aos dez anos de idade e engravidou aos quatorze. “A minha barriga começou a crescer e eu não sabia por quê. Eu não sabia o que era ficar grávida. Quando perguntei, eles falaram que tinha um sapo na minha barriga”. E com a expectativa de expelir o sapo, Cristiane chegou ao hospital e teve a notícia de que, na verdade, ela acabara de parir um filho.

Ela voltou para a casa da avó, que a ajudava a criar seu filho. Nessa época, conheceu o homem com quem teve uma filha, se casou e se mudou para São Paulo, deixando o filho com a bisavó. “Eu não sabia o que ia acontecer, mas foi aí que eu comi o pão que o diabo amassou”. O marido era enfermeiro e Cristiane cuidava da casa e da filha recém- nascida. Ele bebia e frequentemente espancava Cristiane, chegando a cortá­-la com bisturi algumas vezes. Para sair dessa situação, Cristiane só tinha uma alternativa: deixar a filha com o marido e fugir. Ela passou uma semana morando na rua até chegar a Belo Horizonte, onde encontrou quem a recebesse em casa. Sem emprego e lugar para morar, Cristiane voltou para o Vale do Jequitinhonha, mas também não obteve sucesso para se manter. Aceitou o pedido de casamento de Antônio (28), que conhecera quando estava em BH, e voltou para Contagem, na região metropolitana da capital, para se casar com ele. O atual marido é servente de pedreiro há dez anos.

Cristiane deixara um filho com a bisavó no Vale do Jequitinhonha e uma filha com o ex- marido que a espancava em São Paulo. Em outubro de 2013, ela estava em um estágio profundo de depressão, pesava 110 quilos, encontrava enorme dificuldade para pagar o aluguel junto com o marido, quatro filhos – Ingrid (22), João Emanuel (10), Lucas Antônio (7), Vitória Emanuele (5) – e uma neta, Naila (2). Cristiane estava na fila de espera para conseguir uma casa pelo programa do governo federal “Minha Casa Minha Vida” e também na ocupação Dandara, localizada em Belo Horizonte. Após mais de seis meses de espera, no dia 12 de outubro de 2013, ao saber de uma nova ocupação que surgiu próximo da sua casa em Contagem, juntou meia dúzia de roupas, uma cadeira, uma sombrinha e acampou no terreno ocupado. “Até conseguir levantar uma barraca, eu dormia na casa dos outros e passava o dia ajudando nas coisas da ocupação”. Quando, então, ela conseguiu levantar sua casa de tábua de madeira, levou a família para a William Rosa. Desde que entrou, Cristiane se livrou da depressão, emagreceu e se tornou a liderança da equipe azul da ocupação. É ela quem divide as casas, as doações e as tarefas, é também quem mobiliza sua equipe quando tem assembleia ou manifestação e quem sabe sobre os moradores da ocupação. Por todos esses motivos, é ela quem a polícia e o tráfico de drogas procuram para saber informações.

“Eu não vou desistir da luta”


Cristiane falando na Assembleia Legislativa sobre a situação das ocupações urbanas da reigão metropolitana de Belo Horizonte, no dia 05 de setembro de 2015


A visita feita à casa de Cristiane é interrompida o tempo todo. A cada batida na porta, demandas diferentes de pessoas que procuram ajuda por não terem alimento em casa, por terem sido ameaçadas pelo tráfico e por terem necessidade de ir ao médico. Cristiane afirma que guarda o nome dos moradores na cabeça e que, para sua segurança, prefere nem ter anotado. Além de resolver os problemas pessoais, ela conta como se dedicou para garantir as condições de vida em seu setor. “Aqui na ocupação o primeiro setor que teve água dentro de casa, foi o azul. Eu, sem ajuda de homem nenhum, dei o jeito de puxar água para dentro da casa dos moradores. Depois teve problema na luze eu resolvi também”. “É mesmo!”, respondeu João, seu filho mais velho, que assistia Chaves na TV que chiava ao lado.

Cristiane já foi responsável por representar a ocupação William Rosa em diversos espaços institucionais de negociação com o poder público e nos movimentos sociais por moradia. Ela também foi responsável por levar as mulheres da William Rosa na manifestação ocorrida no dia 8 de março de 2014, em combate à violência contra a mulher, e costumava realizar encontros das mulheres da ocupação junto com o Movimento Mulheres em Luta (MML). “Eu tinha depressão profunda, era obesa, não tinha ânimo para nada. Mas quando eu descobri a luta, minha vida voltou a fazer sentido. Eu descobri que organizada no Movimento Mulheres em Luta e no Luta Popular, podia fazer diferença no mundo”, disse, emocionada, a coordenadora, enquanto falava sobre como emagreceu tanto em pouco tempo e parou de tomar antidepressivos.

No entanto, com o passar dos dias e a falta de negociação com os governos municipal, estadual e federal para construir casas dignas para os moradores, cresce na ocupação a guerra do tráfico de drogas entre o bairro Laguna e a “Vilinha do Ceasa”, como é conhecida a ocupação na região. Os confrontos têm um foco: a região geográfica da equipe azul. Isso afeta a dinâmica de Cristiane. “Eu não estou indo nas reuniões de mulheres porque estou com trauma de andar à noite, só estou indo nas reuniões da coordenação quando alguém me traz em casa”. Ela conta que parte da sua rotina diária era ir a todas as casas para conversar com os moradores sobre as atividades da semana, mas que não tem conseguido fazer isso. “A situação não está fácil, só continua aqui quem precisa de verdade. Nós não sabemos qual vai ser a saída. A negociação precisa acelerar, mas eles tratam a gente igual bicho. Nós temos direitos a muitas coisas que ficam debaixo do tapete”, diz Cristiane.

Em mais de uma hora de conversa sem conseguir olhar nos olhos da entrevistadora sequer uma vez, Cristiane tem duas certezas: a primeira é de que não volta mais para o aluguel, nem que seja preciso construir um barraco na esquina. A segunda é de que não vai, nunca, desistir da luta. Essa última certeza, ela afirma com uma ressalva: “em todas as lutas, eu vou estar junto. Mas como apoiadora. Não tenho condições de ser organizadora mais”.






 Reunião de mulheres da ocupação William Rosa no dia 20 de setembro de 2015

Apesar do cansaço de Cristiane, ela é inspira força em muitas mulheres na ocupação. Paola tem 35 anos, é travesti e afirma que não sabe como seria sua vida se não tivesse encontrado a coordenadora de sua equipe, azul. “Quando eu cheguei aqui, não tinha ninguém e a Cristiane me ajudou a construir minha casa, colocar as coisas que têm nela e me ensinou a lutar”, contou. Paola percebe que a amiga anda cansada, mas ela sorri contando dos diálogos que frequentemente acontece entre elas: “eu falo com ela, para um pouquinho, respira um pouquinho, mas volta pra luta. A gente precisa de você”.

“Para começar a organização das mulheres da ocupação, a Cristiane foi fundamental”, é o fato que Lacerda, coordenador da equipe laranja, destaca na primeira conversa. Lacerda não esconde a admiração pela companheira de coordenação e sorri ao completar: “Nós só vamos sair daqui juntos quando a gente conseguir nossa casa, nossa moradia digna”.